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Quando as Palpitações São Apenas um Susto e Quando São um Alerta?

  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Estima-se que cerca de 1,5 milhão de brasileiros convivam com fibrilação atrial, a arritmia sustentada mais comum, e boa parte deles descobre a doença apenas depois de um susto maior. Sentir o coração acelerar, disparar ou "falhar uma batida" é uma das queixas mais frequentes nos consultórios de cardiologia. Na maioria das vezes, essas sensações são inofensivas e passageiras. Em algumas situações, porém, elas são o único aviso de um problema que, se ignorado, pode levar a um AVC. Saber diferenciar um do outro é o primeiro passo para cuidar bem do seu coração.


Cardiologista Avaliando um quadro de Palpitação

O que são, afinal, as palpitações?


Palpitação é o nome que damos à percepção incômoda dos próprios batimentos cardíacos. Cada pessoa descreve de um jeito: coração "batendo forte", "acelerado", "pulando", "falhando" ou "tremendo" no peito. Normalmente não sentimos o coração bater. Quando essa percepção aparece, pode ser porque o ritmo mudou, porque as batidas ficaram mais fortes, ou simplesmente porque estamos mais atentos ao corpo em um momento de ansiedade.

É importante entender que palpitação é um sintoma, não uma doença. Ela pode ter origem no próprio coração ou vir de fatores externos que aceleram os batimentos de forma completamente normal.


Por que o coração acelera ou parece falhar?


Boa parte das palpitações tem causas benignas e ligadas ao dia a dia. Entre as mais comuns estão:

  • Esforço físico, emoções fortes, ansiedade e ataques de pânico

  • Consumo de cafeína, energéticos, álcool e certos chás

  • Cigarro e outras substâncias estimulantes

  • Febre, desidratação ou noites mal dormidas

  • Alterações hormonais, como as da menstruação, gravidez ou menopausa

  • Anemia e alterações da tireoide

  • Alguns medicamentos, incluindo descongestionantes nasais

As chamadas extrassístoles, aquelas batidas "adiantadas" seguidas da sensação de falha, são extremamente comuns e, na maioria das pessoas com o coração saudável, não representam perigo. Ainda assim, quando são muito frequentes ou incomodam bastante, merecem uma avaliação.


Quando as palpitações merecem atenção


Algumas características transformam uma palpitação comum em um sinal de alerta. Procure atendimento médico, e considere um serviço de emergência, se as palpitações vierem acompanhadas de:

  • Dor ou aperto no peito

  • Falta de ar importante ou sensação de sufocamento

  • Tontura intensa, desmaio ou quase desmaio

  • Suor frio associado ao mal-estar

  • Batimentos muito rápidos e irregulares que não passam em poucos minutos

  • Palpitações que surgem durante o esforço físico

Também merecem investigação, mesmo sem urgência, as palpitações que se repetem com frequência, que duram cada vez mais, ou que aparecem em quem já tem pressão alta, diabetes, doença do coração ou histórico de arritmia na família. Nesses casos, o incômodo pode ser a ponta de um problema que só um exame consegue revelar.


Fibrilação atrial: a arritmia que aumenta o risco de AVC


Entre as arritmias, a fibrilação atrial merece destaque especial. Nela, as câmaras superiores do coração perdem o ritmo organizado e passam a se contrair de forma rápida e desordenada. O resultado costuma ser um pulso irregular, com sensação de coração descompassado, cansaço, falta de ar e queda no desempenho para atividades que antes eram fáceis.

O grande problema é que nem sempre a fibrilação atrial dá sintomas. Muitas pessoas convivem com ela sem perceber, e o primeiro sinal acaba sendo justamente sua complicação mais temida.


Por que essa arritmia preocupa tanto


Quando o coração não bate de forma coordenada, o sangue pode ficar parado por instantes dentro das câmaras cardíacas e formar pequenos coágulos. Se um desses coágulos se solta e chega ao cérebro, provoca um AVC. Por isso, quem tem fibrilação atrial chega a ter um risco até cinco vezes maior de sofrer um AVC do que quem não tem a arritmia. Estima-se que essa condição esteja por trás de aproximadamente um a cada três casos de AVC.

A boa notícia é que, uma vez diagnosticada, a fibrilação atrial pode ser controlada. Com o tratamento adequado, incluindo medicamentos que reduzem a formação de coágulos quando indicado, é possível diminuir muito esse risco. É exatamente por isso que reconhecer o sintoma e procurar avaliação faz tanta diferença.


Como o problema é investigado


O desafio das arritmias é que elas costumam ser intermitentes: vão e voltam. Na consulta, o médico ouve a história do paciente, examina o pulso e solicita exames que registram a atividade elétrica do coração. Entre os mais usados estão:

  • Eletrocardiograma, que fotografa o ritmo no momento do exame

  • Holter de 24 ou mais horas, que grava os batimentos ao longo do dia a dia

  • Monitores de eventos e dispositivos vestíveis, úteis quando os sintomas são raros

  • Exames de sangue e o ecocardiograma, para investigar causas e avaliar a estrutura do coração

Registrar a arritmia no momento em que ela acontece é a chave para o diagnóstico correto. Por isso, anotar quando os episódios ocorrem, quanto tempo duram e o que parece desencadeá-los ajuda muito a equipe médica.


O que você pode fazer para proteger o seu ritmo


Grande parte do cuidado com as arritmias está no controle dos fatores que sobrecarregam o coração. As diretrizes mais recentes reforçam a importância de tratar as condições que andam junto com elas. Você pode começar hoje:

  • Mantendo a pressão arterial e o diabetes sob controle

  • Buscando um peso saudável e praticando atividade física com orientação

  • Reduzindo o consumo de álcool e abandonando o cigarro

  • Cuidando do sono e investigando a apneia, que ronco alto e cansaço diurno podem sinalizar

  • Moderando a cafeína se você percebe que ela desencadeia sintomas

  • Aprendendo a manejar o estresse e a ansiedade no dia a dia


A mensagem mais importante


  • Palpitação é um sintoma comum e, na maioria das vezes, sem gravidade, mas nunca deve ser ignorada quando muda de padrão.

  • Procure atendimento imediato se o coração acelerado vier com dor no peito, falta de ar, desmaio ou tontura intensa.

  • A fibrilação atrial pode passar despercebida e aumenta em até cinco vezes o risco de AVC, o que torna o diagnóstico precoce fundamental.

  • Um pulso irregular, cansaço sem explicação e falta de ar merecem investigação, sobretudo em quem tem pressão alta, diabetes ou histórico familiar.

  • Controlar pressão, peso, álcool, cigarro e sono protege o ritmo do coração.

  • Exames simples, como eletrocardiograma e Holter, costumam esclarecer a causa.


Seu coração fala com você todos os dias, e as palpitações são uma dessas mensagens. Ouvir esse aviso com atenção, sem pânico, mas também sem descuido, é um gesto de cuidado consigo mesmo. Se você tem sentido o coração disparar, falhar ou bater de forma irregular com frequência, não espere o susto maior: agende uma avaliação com um cardiologista e descubra o que o seu ritmo está tentando dizer.


Revisão médica:

Dr. Salomão Alcolumbre

Cardiologista | RQE: 1024


Referências


  • Van Gelder IC, Rienstra M, Bunting KV, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation developed in collaboration with the European Association for Cardio-Thoracic Surgery (EACTS). European Heart Journal. 2024;45(36):3314-3414.


  • Joglar JA, Chung MK, Armbruster AL, et al. 2023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline for the Diagnosis and Management of Atrial Fibrillation. Circulation. 2024;149(1):e1-e156.


  • Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial - 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2025.

 
 
 

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