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Colesterol Alto: Por Que Quase Metade dos Adultos Brasileiros Convive com Esse Risco Sem Saber?

  • 12 de jul.
  • 4 min de leitura

Estima-se que cerca de 4 em cada 10 adultos brasileiros apresentem níveis elevados de colesterol, e uma grande parte deles não faz ideia disso. O motivo é simples e, ao mesmo tempo, perigoso: o colesterol alto quase nunca dá sintomas. Muita gente só descobre o problema em um exame de rotina ou, no pior cenário, depois de um infarto ou um AVC.

Chamado de "inimigo silencioso", o colesterol elevado age de forma lenta e invisível, depositando gordura nas paredes das artérias ao longo de anos, até que o vaso se estreite o suficiente para causar um evento grave. Entender o que ele é, por que importa e o que fazer a respeito é um dos passos mais importantes para proteger o coração.


O que é o colesterol e por que ele importa

O colesterol é uma substância gordurosa essencial para o organismo: participa da formação das células, de hormônios e da vitamina D. O problema não é o colesterol em si, mas o desequilíbrio entre suas frações:

  • LDL (lipoproteína de baixa densidade): o chamado "colesterol ruim". É o principal responsável por depositar gordura nas artérias e formar as placas de aterosclerose.

  • HDL (lipoproteína de alta densidade): o "colesterol bom", que ajuda a remover o excesso de gordura da circulação.

  • Triglicerídeos: outro tipo de gordura no sangue que, em excesso, também eleva o risco cardiovascular.

  • Apolipoproteína B (ApoB) e Lipoproteína(a) [Lp(a)]: marcadores utilizados para refinar a avaliação de risco em situações específicas, sobretudo quando os triglicerídeos estão muito altos ou há histórico familiar de doença cardiovascular precoce.

Por que o colesterol alto raramente dá sinais

Na maioria dos casos, o colesterol elevado não provoca dor, cansaço ou qualquer sintoma perceptível. O acúmulo de placas de gordura nas artérias — a aterosclerose — evolui de forma silenciosa, e não é raro que o primeiro sinal de alerta seja justamente um evento cardiovascular grave.

Quando os sintomas finalmente aparecem, em geral já indicam obstrução significativa de uma artéria:

  • Dor ou aperto no peito (angina), especialmente ao esforço

  • Falta de ar

  • Dor irradiando para o braço, a mandíbula ou as costas

  • Fraqueza súbita, alteração da fala ou da visão (possíveis sinais de AVC)

  • Dor nas pernas ao caminhar, que melhora com o repouso (sugestiva de doença arterial periférica)

  • Pequenos depósitos amarelados de gordura na pele ou ao redor dos olhos, mais comuns nas formas hereditárias de colesterol alto

Quem tem mais risco

  • Histórico familiar de colesterol alto ou de infarto precoce (hipercolesterolemia familiar)

  • Alimentação rica em gorduras saturadas e ultraprocessados

  • Sedentarismo e excesso de peso

  • Tabagismo

  • Diabetes e resistência à insulina

  • Idade avançada e, nas mulheres, o período após a menopausa

O que dizem as diretrizes: risco e metas de LDL

As diretrizes de cardiologia deixaram de tratar o colesterol como um número isolado. Hoje, o alvo de LDL é definido de acordo com o risco cardiovascular global de cada pessoa: quanto maior o risco, mais baixo deve ser o LDL. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) classifica o paciente em categorias de risco e, para cada uma, define uma meta de LDL.

A definição da categoria é individualizada e leva em conta idade, histórico familiar, presença de diabetes, hipertensão, tabagismo e a ocorrência de eventos cardiovasculares prévios. Em casos selecionados, marcadores como ApoB e Lp(a) ajudam a refinar essa avaliação.

Metas de LDL segundo a estratificação de risco (SBC)

  • Risco baixo: LDL abaixo de 130 mg/dL

  • Risco intermediário: LDL abaixo de 100 mg/dL

  • Risco alto: LDL abaixo de 70 mg/dL

  • Risco muito alto: LDL abaixo de 50 mg/dL

Vale notar que essa lógica de metas progressivamente mais rigorosas para quem tem maior risco é compartilhada pelas principais diretrizes internacionais, como as da American Heart Association (AHA) e da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), ainda que os valores exatos possam variar entre elas.

Como saber se o seu colesterol está sob controle

O único jeito confiável de saber se o colesterol está em níveis adequados é por meio de um exame de sangue simples, o perfil lipídico. De forma geral, recomenda-se:

  • Iniciar a avaliação já na vida adulta, mesmo sem sintomas

  • Repetir periodicamente em pessoas sem alterações e de baixo risco

  • Avaliar com mais frequência quem tem diabetes, hipertensão, obesidade, histórico familiar de doença cardiovascular precoce ou colesterol já alterado

A periodicidade ideal deve ser definida em conjunto com o médico, de acordo com o risco de cada pessoa.

O que você pode fazer para proteger o seu coração

  • Reduza o consumo de gorduras saturadas e trans, presentes em frituras, embutidos e ultraprocessados

  • Aumente a ingestão de fibras, frutas, vegetais, grãos integrais e peixes ricos em ômega-3

  • Pratique atividade física regularmente, pelo menos 150 minutos por semana

  • Mantenha o peso corporal dentro de limites saudáveis

  • Não fume e, se for fumante, procure ajuda profissional para parar

  • Tome a medicação prescrita corretamente, sem interromper por conta própria mesmo quando os exames melhoram

  • Faça acompanhamento periódico para reavaliar o risco e ajustar o tratamento

A mensagem mais importante

  • O colesterol alto atinge cerca de 4 em cada 10 adultos brasileiros e raramente causa sintomas antes de um evento cardiovascular grave.

  • O LDL elevado é a principal fração associada à formação de placas nas artérias; HDL, triglicerídeos e, em casos específicos, ApoB e Lp(a) completam a avaliação de risco.

  • A meta de LDL não é única: ela é mais baixa quanto maior o risco cardiovascular da pessoa.

  • Um exame de sangue periódico é a única forma confiável de identificar o problema a tempo.

  • Alimentação equilibrada, atividade física, controle de peso, não fumar e uso correto da medicação são a base do tratamento.

Cuidar do coração começa por conhecer os próprios números. Se você não sabe qual é o seu nível de colesterol ou já faz algum tempo desde o último exame, considere agendar uma avaliação com um cardiologista para revisar o seu risco cardiovascular e definir a conduta mais adequada ao seu caso.

Revisão médica:

Dr. Salomão Alcolumbre

Cardiologista | RQE: 1024


Referências

  • Faludi AA, Izar MCO, Saraiva JFK, et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2017. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2017;109(2 Supl 1):1-76.

  • Grundy SM, Stone NJ, Bailey AL, et al. 2018 AHA/ACC Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation. 2019;139(25):e1082-e1143.

  • Mach F, Baigent C, Catapano AL, et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias: lipid modification to reduce cardiovascular risk. European Heart Journal. 2020;41(1):111-188.

 
 
 

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