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Esteatose Hepática: O Que Você Precisa Saber Sobre o Fígado Gorduroso

  • Foto do escritor: Dr. Salomão Barauna Alcolumbre
    Dr. Salomão Barauna Alcolumbre
  • há 23 horas
  • 4 min de leitura

Revisão Médica

Dr. Salomão Alcolumbre

CRM - 1098/RQE: 1024


A esteatose hepática, popularmente conhecida como "gordura no fígado", tornou-se uma das condições hepáticas mais comuns no Brasil e no mundo. Estima-se que cerca de 30% da população adulta seja afetada por essa condição, que frequentemente evolui de forma silenciosa e pode trazer consequências importantes para a saúde.



O Que É a Esteatose Hepática?


A esteatose hepática ocorre quando há acúmulo excessivo de gordura nas células do fígado (hepatócitos). Em condições normais, o fígado contém pequenas quantidades de gordura, mas quando esse percentual ultrapassa 5% do peso do órgão, caracteriza-se a esteatose.


Recentemente, a comunidade médica internacional atualizou a nomenclatura dessa condição. O termo anteriormente utilizado — "doença hepática gordurosa não alcoólica" (DHGNA) — foi substituído por "doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica" (MASLD, na sigla em inglês). Essa mudança reflete melhor a compreensão atual de que a condição está intimamente ligada a alterações metabólicas como obesidade, diabetes e síndrome metabólica.


Quais São as Causas?


A esteatose hepática está fortemente associada ao estilo de vida moderno e a condições metabólicas. Os principais fatores de risco incluem:


O excesso de peso e a obesidade são os fatores mais importantes, especialmente quando há acúmulo de gordura na região abdominal (obesidade central). O diabetes tipo 2 e a resistência à insulina criam um ambiente metabólico que favorece o depósito de gordura no fígado. A alimentação rica em açúcares refinados, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados contribui diretamente para o problema.


O sedentarismo reduz a capacidade do organismo de metabolizar adequadamente as gorduras. Alterações nos níveis de colesterol e triglicerídeos (dislipidemia) também estão frequentemente presentes.


Além desses fatores, o consumo excessivo de álcool pode causar um quadro semelhante, denominado doença hepática alcoólica, que possui características e tratamento específicos.


Por Que a Esteatose Hepática Preocupa o Cardiologista?


Existe uma relação bidirecional importante entre a esteatose hepática e as doenças cardiovasculares. Pacientes com fígado gorduroso apresentam risco aumentado de desenvolver hipertensão arterial, aterosclerose, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC).


Isso ocorre porque a esteatose hepática não é apenas um problema localizado no fígado. Ela reflete um estado de inflamação crônica e disfunção metabólica sistêmica que afeta todo o organismo, incluindo o coração e os vasos sanguíneos. Na verdade, as complicações cardiovasculares representam a principal causa de morte em pacientes com esteatose hepática — mais do que as complicações hepáticas propriamente ditas.


Por isso, ao identificar um paciente com esteatose, é fundamental realizar uma avaliação cardiovascular completa, incluindo controle da pressão arterial, perfil lipídico e avaliação do risco cardíaco global.


Sintomas: Uma Doença Silenciosa


A esteatose hepática é frequentemente assintomática em suas fases iniciais. A maioria dos pacientes descobre a condição por acaso, durante exames de rotina como ultrassonografia de abdome ou exames de sangue que mostram alteração das enzimas hepáticas (TGO e TGP).


Quando presentes, os sintomas costumam ser inespecíficos: cansaço, desconforto leve no lado direito do abdome e sensação de peso após as refeições. Em fases mais avançadas, quando já existe comprometimento significativo do fígado, podem surgir sinais de doença hepática crônica.


Como É Feito o Diagnóstico?


O diagnóstico da esteatose hepática geralmente começa com a ultrassonografia abdominal, que consegue identificar o aumento da ecogenicidade (brilho) do fígado causado pelo acúmulo de gordura. Esse exame é acessível, não invasivo e amplamente disponível.


Exames de sangue complementam a avaliação, incluindo as enzimas hepáticas (TGO, TGP, GGT), perfil lipídico, glicemia e hemoglobina glicada. Em alguns casos, podem ser solicitados exames mais específicos para avaliar o grau de fibrose hepática, como a elastografia transitória (FibroScan) ou índices calculados a partir de exames laboratoriais.


Evolução: Da Esteatose à Cirrose


A esteatose hepática pode seguir diferentes caminhos evolutivos. Em muitos pacientes, permanece estável por anos sem causar maiores problemas. No entanto, em uma parcela significativa — especialmente naqueles que mantêm os fatores de risco descontrolados — pode progredir para formas mais graves.


A esteato-hepatite é o estágio seguinte, caracterizado por inflamação do fígado associada à gordura. Com o tempo, essa inflamação crônica pode levar à fibrose (formação de cicatrizes no tecido hepático) e, eventualmente, à cirrose. Pacientes com cirrose têm risco aumentado de desenvolver câncer de fígado (hepatocarcinoma).

A boa notícia é que, nas fases iniciais, a esteatose hepática é reversível com mudanças adequadas no estilo de vida.


Tratamento: Mudança de Estilo de Vida em Primeiro Lugar


Não existe, até o momento, um medicamento específico aprovado para tratar a esteatose hepática. O tratamento baseia-se fundamentalmente em modificações no estilo de vida, que são surpreendentemente eficazes quando realizadas de forma consistente.

A perda de peso é a intervenção mais importante. Uma redução de 7 a 10% do peso corporal pode reverter significativamente a esteatose e até mesmo melhorar a fibrose em estágios iniciais. Essa perda deve ser gradual e sustentável, preferencialmente através da combinação de alimentação saudável e atividade física regular.


A alimentação deve priorizar alimentos naturais e minimamente processados: vegetais, frutas, proteínas magras, grãos integrais e gorduras saudáveis (como azeite de oliva e oleaginosas). Deve-se reduzir o consumo de açúcares adicionados, refrigerantes, doces, frituras e alimentos ultraprocessados.


A atividade física regular traz benefícios independentes da perda de peso. Recomenda-se pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada (como caminhada, natação ou ciclismo), associada a exercícios de resistência muscular.


O controle rigoroso das condições associadas — diabetes, hipertensão e dislipidemia — é igualmente essencial, tanto para a saúde do fígado quanto para a prevenção cardiovascular.


Quando Procurar um Médico?


Se você foi diagnosticado com esteatose hepática ou possui fatores de risco para essa condição (obesidade, diabetes, síndrome metabólica), é importante realizar acompanhamento médico regular. O objetivo é monitorar a evolução da doença hepática e, principalmente, avaliar e controlar o risco cardiovascular associado.


Lembre-se: a esteatose hepática é um sinal de alerta do seu organismo indicando que algo precisa mudar. Com orientação adequada e compromisso com um estilo de vida mais saudável, é possível reverter essa condição e proteger não apenas o fígado, mas todo o sistema cardiovascular.


Referências


  1. Rinella ME, Neuschwander-Tetri BA, Siddiqui MS, et al. AASLD Practice Guidance on the clinical assessment and management of nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology. 2023;77(5):1797-1835. doi:10.1097/HEP.0000000000000323

  2. Kanwal F, Neuschwander-Tetri BA, Loomba R, Rinella ME. Metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease: Update and impact of new nomenclature on the American Association for the Study of Liver Diseases practice guidance on nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology. 2024;79(5):1212-1219. doi:10.1097/HEP.0000000000000670

  3. Rinella ME, Lazarus JV, Ratziu V, et al. A multisociety Delphi consensus statement on new fatty liver disease nomenclature. Annals of Hepatology. 2024;29(1):101133. doi:10.1016/j.aohep.2023.101133


 
 
 

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